gota de água em forma de coração caindo em uma pequena poça representando o amor líquido de bauman
Relacionamento Afetivo

O Amor Líquido de Bauman

Vou falar um pouco sobre o Amor Líquido de Bauman, livro que me gerou profundas reflexões. Ele vai muito além de simplesmente questionar as atuais relações cotidianas, as quais acompanham o imediatismo tecnológico e psicológico, já que a impulsão promovida pela necessidade de suprir carências emocionais sempre fala mais alto.

Amor romântico

O Amor Líquido de Bauman desmistifica o amor romântico e aborda esse sentimento de uma forma mais realista, o  que me leva a pensar exatamente como ele: existe uma dualidade entre o amor e o egocentrismo. As pessoas dizem amar, mas suas atitudes são impulsionadas pelo calor de suas carências. Ou seja, desejam o objeto de amor porque ele é portador daquilo que falta no indivíduo que diz amar. Existe uma ambivalência, porque amar é sinônimo de alteridade, que é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende do outro, o que contraria a dependência tão comum nas relações.

Tendência de projetar no outro expectativas pessoais

Existe uma tendência de projetar no outro expectativas pessoais. E, dessa forma, as pessoas se comprometem desde que, de forma inconsciente possam se tornar únicas com o outro, ou seja, “se eu gosto de rock, você também vai gostar” e por aí segue a lista de condições que só tornam o outro cada vez mais igual a nós, ignorando a singularidade importante e sustentadora de uma relação que, aliás, não deve nunca ter a pretensão de durar para sempre. A finitude é um medo que o ser humano carrega, justamente por essa atitude equivocada de projetar-se no outro, deixando de lado suas bases subjetivas essenciais. “O outro precisa ser meu e se anular para que eu possa ser feliz”. “Se não for como eu quero, é porque tem algo errado”.

Somos diferentes

As pessoas se esquecem que somos diferentes e se decepcionam com isso. É a contraditoriedade do amor com o egocentrismo. São opostos que se misturam nessa ação de amar tão conhecida pelo ser humano.

Reprodução dos comportamentos de consumo nas relaçõesgota de água em forma de coração caindo em uma pequena poça representando o amor líquido de bauman

Existe uma tendência à reprodução dos comportamentos de consumo nas relações. A maioria está tão acostumada com a velocidade das informações e com que os produtos chegam às mãos, que acabam, de forma inconsciente, encaixando as relações nessa mesma realidade, como se estas fossem produtos a serem descartados quando não atingem o nosso objetivo.

E isso é o contrário do amor. A imprevisibilidade ou incerteza causa insegurança e isso abala as estruturas de qualquer indivíduo controlador. Amor e posse se confundem nesse jogo e, com isso, a relação se torna um jogo de forças em que um manipula o outro para que permaneçam juntos, culminando no fim.

Relação dicotômica

O Amor Líquido de Bauman nos traz a relação dicotômica das pessoas que vivem esta condição de descartabilidade, ou seja, amam e desamam, porque na verdade fogem do amor. Ele aborda  a “incapacidade de amar”. Existe uma fuga do amor pelo medo do fim. Não há ego que suporte a rejeição!

Dessa forma, há que se encarar o fenômeno do amor como uma “hipoteca baseada em um futuro incerto”, pensando na relação de forma mais racional e realista e, a partir do diálogo, desde o início, assinar um contrato de tudo o que um pode suportar e abrir mão, da mesma forma como o outro. E assim, cabe à maturidade de cada um, o papel de respeitar os limites, sabendo dizer não toda vez que sentir essa necessidade.

Uma relação baseada em respeito mútuo e diálogo tende a ser mais duradoura

Uma relação baseada em respeito mútuo e diálogo tende a ser mais duradoura, mas mesmo assim, não tem o “felizes para sempre” como lema principal. Por isso, a importância de também respeitar a individualidade. Quando um subjuga o outro e o outro acata com essa situação, há uma predominância de poder injusta, que acaba privando a felicidade de um em detrimento do outro.

Há uma questão interessante que o Amor Líquido de Bauman aborda: a incerteza constante de um relacionamento. Eliminar a solidão não é o mesmo que eliminar o sentimento de estar só. Você pode sofrer estando com alguém. Eliminar expectativas é tão importante quanto evitar cobranças. As duas condições equilibram a sensação interna de leveza.

O amor, que o livro Amor Líquido de Bauman define, consiste em aceitar o outro apesar de suas diferenças e mesmo que o foco de sua escolha não seja você. O outro não deve ser muleta para suprir nossas carências e sim, o alicerce central capaz de impulsionar a evolução conjunta, respeitando sempre a individualidade dos dois, dentro e fora da relação. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.

Sobre viver juntos

O Amor Líquido de Bauman ainda fala que o viver juntos deve ser por causa de e não a fim de. Não ter a pretensão de tornar o outro mais um laço de parentesco para nós deve ser uma condição importante. Pensar em como a relação vai ser é algo mais leve do que transformar a relação em uma obrigação matrimonial. Da mesma forma, deve-se manter o pensamento crítico de não almejar uma relação duradoura, mas aquela que deve durar o tempo necessário. O viver junto pode ser mais leve quando há divisão de tarefas de forma equilibrada. O autor fala: “pode significar navegar juntos e compartilhar as alegrias e agruras da viagem”.

A lição que o Amor Líquido de Bauman deixa

Por fim, a lição que o Amor Líquido de Bauman deixa é o de se permitir enamorar sem se prender. Sentir sem se cobrar e, ao mesmo tempo, sem cobrar o outro, vivendo a plenitude do momento que acontece, e não esperar pelo futuro que não existe.

Duas frases são pertinentes e sintetizam as lições que o Amor Líquido de Bauman deixa: uma é do texto em questão, e a outra de uma psicanalista seguidora de Freud, Lou Salomé:

Ninguém pode prever o que será a partir do que é – mas ninguém pode suportar com leveza essa impossibilidade. No mar da incerteza, procura-se a salvação nas ilhotas da segurança. Será que aquilo que ostenta um passado mais longo tem maiores probabilidades de ingressar no futuro intacto e incólume do que algo admitidamente feito e desfeito pelo homem ostensivamente de ontem ou de hoje?” (Bauman)

“…A fusão inteira do nosso ser com o outro, por mais querido que seja, não seria desejável. É preciso que sejamos cada vez mais nós mesmos, para poder ser um mundo para o outro. (…) só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. (…) É preciso que a gente seja sempre, um para o outro, duas deliciosas surpresas fecundas.” (Lou Salomé)

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